Trabalhar com ‘múltiplas alternativas’ pode diminuir ‘batalhas’ na empresa

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por José Roberto Ferro, presidente do Lean Institute Brasil

As chamadas “batalhas organizacionais” – ou seja, “puxações de tapete”, disputas entre lideranças, divergências interpessoais entre membros de equipes etc. – ocorrem com frequência nos vários níveis do mundo corporativo e podem ser tão destrutivas quanto imobilizadoras.

Recheadas, muitas vezes, de egos, vaidades e gostos pessoais, tais batalhas frequentemente tornam mais pobres as decisões tomadas dentro da empresa. Além disso, atrapalham o trabalho em equipe que é cada dia mais vital e necessário. Sem contar que contribuem para tornar ainda pior o clima ruim e gerador de estresse.

Engana-se, porém, quem acredita que para diminuir isso basta aquela abordagem tradicional e típica do tipo “vamos todos para um retiro em um final de semana para nos conhecermos melhor”.

Apesar de representar momentos de relaxamento, esse tipo de ação não vai necessariamente fazer com que as pessoas se entendam melhor, eliminando comportamentos de disputa e competições pessoais internas. Também não vai resolver o problema contratar um coach para melhorar o comportamento dos executivos. Tampouco fazer psicanálise para permitir um maior autoconhecimento.

Para resolver isso de vez, é necessário embutir no sistema de gestão da empresa algumas ferramentas que estimulem o consenso e a conquista de acordos. Uma delas é o esforço para constantemente criar “alternativas de ação” para todo processo decisório importante. Essa construção de múltiplas alternativas para resolver algo facilita a negociação e o diálogo entre as pessoas.

Por exemplo, se cada pessoa trouxer apenas uma alternativa ou uma única solução para uma discussão, por mais refletida e pensada que ela tenha sido, e, assim, tentar convencer os outros que essa opção é a melhor, a negociação e a discussão certamente podem emperrar. Simplesmente porque as pessoas são diferentes e, por isso, têm pontos de vista diferentes, criados a partir de seus filtros pessoais sobre como enxergam a realidade.

Além disso, levar uma única “opção de solução” – a sua! – para uma reunião, as críticas ou ideias alternativas que, na verdade podem ser até melhores, tenderão a ser mal recebidas, gerando um comportamento defensivo para tentar justificar que a “minha alternativa é a melhor”. Com isso, aumenta-se a chance de se gerar ambientes de disputa e conflito.

Por outro lado, o esforço constante para a criação de “múltiplas alternativas” para resolver algo tem o mérito de estimular as pessoas a pensar “fora da caixa”, em algo completamente inovador, o que, muitas vezes, pode ser extremamente útil. E, além disso, poderá criar linhas de concordância e confluências com outras abordagens, pois amplia o espaço de negociação.

É importante sempre lembrar que qualquer decisão ou opção escolhida só vai ser efetivamente considerada adequada quando for “testada”. Ou seja, quando a decisão acabar virando uma ação concreta, colocada em prática, com resultados medidos e analisados. Só assim, saberemos se funciona.

De qualquer forma, ter sempre a perspectiva de que é necessário trazer múltiplas ideias para um processo decisório só vai enriquecer o repertório de respostas dentro da empresa, aumentando, assim, as chances de termos boas decisões. E, mais importante ainda, se tais alternativas trazidas forem fortemente calcadas em dados e fatos, a discussão e negociação se tornam objetivas e mais produtivas.

Não se está aqui tentando eliminar as divergências ou discussões. Muito menos tentando criar ambiente de acordos e de consenso em que todos devem pensar de forma igual. Muito pelo contrário.

Trata-se de criar um ambiente de debate objetivo, orientado por dados e, principalmente, por fatos concretos, no qual a divergência é bem vinda e até mesmo estimulada, mas desde que seja orientada por uma busca profunda por alternativas comprovadamente melhores.

Ao mesmo tempo, possibilita um clima desafiador que estimule novas ideias, mas sempre com respeito às pessoas. Ideias diferentes serão sempre bem-vindas, desde que justificadas pelos fatos. Tudo isso, orientado por líderes que precisam, às vezes, deixar seus egos “na porta” e sentirem-se menos “donos da verdade” e com mais espírito aberto para ouvir.

Essa maneira de trabalhar pode não eliminar completamente a existência de agendas políticas, mas permite que elas não sejam colocadas acima das necessidades reais do negócio e dos clientes. Esse conceito já é amplamente usado no sistema de desenvolvimento de produtos e processos lean. Mas precisa ser ampliado para todas as decisões importantes na empresa.

Lidar com alternativas múltiplas, como método explícito que abrange todas as esferas de decisões e de soluções de problemas, permite que se chegue a decisões melhores sem haver batalhas e disputas pessoais.

Originalmente publicado em Época Negócios

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