“Todas as pessoas bem-sucedidas têm seus fracassos”

Waste paper spilling out of bin

Cinco milhões de pessoas viram, ao vivo, o jornalista Dan Harris sofrer um ataque de pânico enquanto apresentava o Good Morning America, um programa matinal de variedades da rede americana ABC News. O incidente aconteceu em 2004, mas voltou a ser notícia.

No livro 10% mais feliz: como aprendi a silenciar a mente, reduzi o estresse e encontrei o caminho para a felicidade – uma história real, um lançamento da Editora Sextante, o apresentador faz um relato sem meias palavras sobre as causas e consequências daquele episódio transformador.

Poucos ambientes são tão competitivos quanto o dos telejornais de sucesso. Dan era um rapaz de 28 anos quando chegou à emissora, onde ainda trabalha, para ser colega de gigantes como Peter Jennings e Diane Sawyer. “Tinha cara de quem tinha acabado de sair da adolescência”, diz ele. “Não sabia o quão inexperiente eu era quando comparado a profissionais que eu via na TV desde criança.”

A maneira que encontrou para lidar com a pressão e a insegurança foi se tornar workaholic. Mergulhou no trabalho mais do que deveria. Depois do atentado de 11 de setembro, se ofereceu para passar alguns anos no Iraque e Afeganistão. Precisava provar que era capaz de fazer trabalho de gente grande.

Como tantos soldados americanos, Dan voltou aos Estados Unidos sofrendo de depressão. Começou a usar cocaína e ecstasy. “Não usava drogas no trabalho, muito menos quando estava no ar”, afirma. Esse limite não foi suficiente para livrá-lo do maior constrangimento de sua vida.

Naquele inesquecível 7 de junho de 2004, Dan deveria ler as manchetes de hora em hora. Enquanto apresentava uma notícia de saúde, sentiu o coração acelerar. A boca secou e as mãos suavam. Não mais o que estava dizendo e, no meio da transmissão, desistiu de continuar.

O erro ficou escancarado quando imagens da próxima notícia (sobre o filme Harry Potter) apareceram no vídeo sem que o apresentador lesse informação alguma.

Profundamente envergonhado, Dan procurou um especialista em síndrome do pânico. O psiquiatra não teve dificuldade para ligar os pontos e resolver o mistério. Segundo ele, as drogas aumentaram os níveis de adrenalina no cérebro e produziram o vexame em rede nacional.

Na tentativa de se reerguer e de lidar melhor com as pressões, o jornalista procurou gurus e outros recursos fajutos. Até que, encorajado pela mulher, decidiu experimentar a meditação.

“A meditação tem um sério problema de marketing, em grande parte porque seus expoentes falam como se estivessem o tempo todo acompanhados por uma flauta”, diz ele. “Se você ignorar isso, vai descobrir que ela é simplesmente um exercício para o cérebro.”

Está comprovado que a meditação reduz a ansiedade, ajuda no combate à depressão e melhora os níveis de atenção. Outras pesquisas investigam os efeitos da prática nas mais variadas condições: desordens alimentares, diabetes, artrite reumatóide, doenças coronarianas, menopausa.

Existem várias formas de meditação. Assim como os remédios, ela não funciona para todas as pessoas nem faz milagre. Não cria neurônios nem aumenta as conexões entre eles, mas as conexões já existentes se tornam mais fortes. O cérebro fica mais eficiente.

“Sempre achei que meditar fosse algo ridículo, mas agora pratico diariamente”, diz ele. No livro, Dan oferece boas dicas para quem, como ele, teve dificuldades para aprender a técnica. Segundo ele, a meditação é capaz de nos fazer 10% mais felizes.

“Inventei esse número por duas razões: ele me ajuda a fazer campanha contra as promessas dos gurus de autoajuda e, também, porque acho que estamos preparados para um diálogo mais maduro e realista sobre a felicidade”.

O jornalista conta que a meditação alterou radicalmente a relação que ele tinha com o tédio. Passou a encarar os pequenos intervalos entre duas atividades (o minuto antes de entrar no ar, por exemplo) como uma oportunidade de se concentrar na respiração e apenas observar tudo à volta.

Dan criou uma lista de conselhos para quem pretende viver melhor no ambiente corporativo. Reproduzo o texto dele.

NÃO SEJA UM CANALHA
Claro que é comum encontrar pessoas que são bem-sucedidas, apesar de tratar mal os outros. Conheci muita gente assim ao longo de minha carreira, mas elas nunca pareciam ser realmente felizes. Às vezes as pessoas pensam que o sucesso numa profissão competitiva requer o oposto da compaixão. A compaixão tem o benefício estratégico de conquistar mais aliados. E ainda torna você uma pessoa muito mais feliz e realizada.

QUANDO NECESSÁRIO, ESCONDA O ZEN
Seja bonzinho, mas não se torne um saco de pancadas. Às vezes é preciso competir agressivamente, mostrar que você merece algo mais, ou mesmo ter algumas conversas duras. Não é fácil, mas é possível fazer isso com tranquilidade e sem levar para o lado pessoal.

MEDITE
A meditação é o superpoder que torna todos os outros preceitos possíveis. A prática traz benefícios incontáveis – desde a saúde melhor até mais foco e uma sensação de calma profunda --, mas o melhor deles é o desenvolvimento da habilidade de responder em vez de reagir a seus impulsos e desejos.

O PREÇO DA SEGURANÇA É A INSEGURANÇA – ATÉ ISSO NÃO SER MAIS ÚTIL
A atenção plena demonstrou ser para mim um grande debulhador mental, separando o joio do trigo na hora de saber quando valia a pena eu me preocupar com alguma coisa ou quando era inútil fazer isso. Vigilância, diligência, capacidade de estabelecer objetivos audaciosos – todas essas são as partes boas da insegurança.

TRANQUILIDADE NÃO É INIMIGA DA CRIATIVIDADE
Ser mais feliz não me tornou um zumbi. Em vez de me transformar numa pessoa sem graça, sem problemas, a meditação me tornou um conhecedor das minhas neuroses. Jon Kabat-Zinn teorizou que a ciência poderá um dia provar que a meditação realmente torna as pessoas mais criativas ao eliminar as ruminações rotineiras e as conclusões precipitadas, dando espaço para pensamentos inovadores.

NÃO FORCE A BARRA
Relaxar um pouco me serviu muito bem no set do Good Morning America, nas interações pessoais e nos momentos em que escrevia minhas matérias. Comecei a perceber os benefícios das pausas com propósito e a aceitar a ambiguidade. Nem sempre funcionava, claro, mas era melhor do que minha antiga técnica de passar por cima como um trator para obter uma resposta.

HUMILDADE PREVINE HUMILHAÇÃO
Quando você não bate o pé nem deixa seu ego manipulá-lo, é possível lidar com as situações complicadas de uma forma bem mais tranquila. Para mim, a humildade foi um alívio, o oposto da humilhação. Aparou as arestas da mente comparadora. Atingir esse equilíbrio é delicado; é preciso tomar cuidado para não levar a humildade longe demais e se tornar passivo.

DEVAGAR COM SEU CHICOTE INTERIOR
Como parte do meu lema do “preço da segurança”, eu havia presumido que a única rota para o sucesso é a autocrítica severa. No entanto, pesquisas mostram que ser “firme, mas gentil” é a melhor estratégia. Todas as pessoas bem-sucedidas têm seus fracassos. Se você criar um ambiente interior onde seus erros são perdoados e seus defeitos são encarados com sinceridade, sua capacidade de se recuperar aumenta exponencialmente.

DESAPEGO AOS RESULTADOS
Desapego aos resultados mais autocompaixão é igual a flexibilidade e resistência emocional sem precedentes. Lute, jogue para vencer, mas não adote a posição fetal se as coisas não acontecerem do jeito que você esperava.

O QUE É MAIS IMPORTANTE?
Aprendi a perguntar a mim mesmo, quando me preocupo com o futuro: “O que eu quero realmente?” Embora ainda amasse o sucesso, descobri que havia um limite para o sofrimento que estava disposto a enfrentar.

Matéria da revista Época

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