“Só em 2008 houve tanta procura por serviços de recolocação de executivos como agora”

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A desaceleração na economia brasileira tem se refletido em demissões de dezenas de executivos de uma só vez, promovidas por grandes empresas. Quem lucra, nesse cenário, são as consultorias de outplacement (em português, recolocação de executivos). No último ano, esse é o serviço mais demandado na Career Center, uma das mais consagradas do setor. “O faturamento dessa área de atividade cresceu de 30%, que é nossa média normal, para 70% do total do grupo”, afirma Claudia Monari, diretora de assessment e outplacement na companhia. "É a maior procura já registrada. A única vez que chegamos ao mesmo nível foi em 2008, durante a crise."

Cem por cento dessa demanda atual são casos de reestruturação conjunturais, isto é, como consequência e uma mudança no ambiente externo. “Está claro que essa alta procura tem a ver com as demissões consequentes à falta de confiança na economia", diz Ana Letícia Lucca, diretora comercial da Career. "Trata-se de um cenário em que a empresa produzia X e, portanto, tinha X funcionários. Agora, diante da perspectiva do mercado, vai produzir Y, então precisa reduzir o quadro de pessoas, para se adequar à nova realidade.”

O serviço de outplacement oferece uma assessoria particular à cada pessoa para ajudá-la a procurar - e encontrar - um novo emprego. Concluir o processo, no entanto, não tem sido uma tarefa fácil. Em dezembro, janeiro e fevereiro, não houve recolocação alguma entre os clientes da Career Center. “Embora as pessoas costumem dizer que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval”, afirma Claudia, “não é o que costumamos ver no nosso negócio. Geralmente, esses meses são como outros quaisquer, com dezenas de contratações. Então, 2015 foi uma exceção.” Há dois meses, no entanto, o cenário começou a melhorar. “Em março já houve 40 recolocações, e, em abril, mais de 30. Acredito que havia uma demanda represada, muita coisa parada que precisou avançar.”

Mesmo assim, as consultoras notaram um prolongamento no tempo do processo seletivo desde o ano passado. A média, até então, era de até dois meses entre a primeira entrevista feita pela empresa com o executivo e o fechamento do contrato. Atualmente, diversas companhias têm demorado até sete meses para concluir o mesmo processo. “Um cliente, por exemplo, recebeu a proposta agora de um processo que começou no início de outubro de 2014”, diz Claudia.

O prolongamento do tempo de seleção coincide com novos entrevistadores envolvidos no processo. “Antes, víamos apenas o gestor e o RH presentes nas etapas de contratações”, afirma Claudia. “Agora, muito candidato passa também pelo aval de clientes internos, de subordinados e de outros superiores”. Por quê? “É muito caro admitir um executivo, por causa dos custos com treinamento, entre outros. Então, há um receio grande dar errado. Em momentos de gastos enxutos, como agora, esse receio fica ainda mais forte.”

Se, por um lado, o resultado é positivo para a consultoria, garantindo boa parte da receita, por outro, preocupa no longo prazo. Não só para a sustentabilidade da consultoria, mas também das empresas, em geral. “Tão importante quando o cuidado com quem sai é o cuidado com quem fica”, diz Ana Letícia. Segundo ela, nenhuma das empresas que atualmente usam o serviço de recolocação de executivos investe também em outros serviços oferecidos pela Career. Entre eles, coaches ou treinamentos para os profissionais empregados. “Acredito que essa seja a demanda principal do próximo semestre”, diz ela. “Agora as companhias estão cortando músculos. Daqui a pouco, verão como o corpo se acomoda sem esses músculos e como vão fazer para desenvolver outras capacidades para continuar de pé.”

Matéria do site Época Negócios

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