Quem procrastina tem mais chances de fracassar

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Desde que cunhou o termo “economia criativa”, em 2001, para designar o grupo de atividades que dependem essencialmente de conhecimento, cultura e imaginação para serem realizadas, o consultor britânico John Howkins tornou-se referência para artistas, escritores, publicitários designers – e todos os demais profissionais que têm o cérebro como principal ferramenta de trabalho. Formado em relações internacionais, com passagens pela Unilever, HBO e Time Warner, Howkins é autor do best-seller The Creative Economy - How People Can Make Money From Ideas (Economia Criativa - Como as Pessoas Podem Ganhar Dinheiro a Partir de Ideias, lançado no Brasil em 2012), um guia sobre direitos autorais e patentes e também um manifesto sobre a importância da criatividade no século XXI.

Em passagem pelo Brasil para divulgar o curso de Mídias Socias Digitais, que começa a ser ministrado pela faculdade Belas Artes em São Paulo no próximo ano, Howkins conversou com Época NEGÓCIOS. O consultor falou sobre a abrangência da cultura criativa – que começa a ganhar espaço mesmo em empresas mais tradicionais –, destacou a dificuldade de alguns gestores de lidar com um novo perfil de profissional e apontou o que pode ser um grande obstáculo das mentes criativas: a tendência à procrastinação. “Quem procrastina tem muito mais chance de fracassar”, diz Howkins. “Independentemente do setor em que trabalhe, pelo menos metade de sua habilidade será medida pela capacidade de fazer coisas com rapidez.” A seguir, os principais trechos da conversa:

Qual o obstáculo mais comum entre os profissionais criativos e por que alguns reclamam da dificuldade de transformar suas ideias em resultados?

As pessoas criativas bem-sucedidas são muito, muito focadas. E, acima de tudo, determinadas. Elas não procrastinam. E isso é algo de extrema importância porque, independentemente do setor em que atue, pelo menos metade de sua habilidade será medida pela capacidade de entregar as coisas dentro do prazo. Quem procrastina tem mais chances de não cumprir prazos e de fracassar. Não adianta ser um arquiteto brilhante, se você não é capaz de entregar um projeto até a data solicitada pelo cliente. A procrastinação é uma tendência comum a todas as pessoas, mas, talvez, seja algo mais corriqueiro entre pessoas com mentes criativas ou aquelas que enxergam seu trabalho como uma arte. A procrastinação pode ter resultados terríveis. É como o bloqueio de um escritor ou mesmo a depressão, que te impede de fazer coisas.

É possível livrar-se desse hábito?

O motivo principal para deixar para depois algo que poderia ser começado agora, eu presumo, é o medo de falhar em executar aquilo que sua mente sonhou. Se você tem uma folha em branco, ela é apenas uma folha em branco e é possível imaginar que você será capaz de criar qualquer coisa a partir dela. Mas depois que você começa a executar uma tarefa, a pintar na folha, a colocar números e ideias para um relatório, qualquer coisas, a folha passa a ser um retrato de seu trabalho, é como se fosse uma mostra da sua capacidade de fazer as coisas. A folha em branco pode ser perfeita. Mas a folha com sua arte, sua escrita, seu projeto, talvez não seja. A procrastinação pode vir do medo de assumir riscos, de errar. Não é possível fazer nada sem correr riscos. É preciso dar a cara para bater. Independentemente do resultado, no mínimo, vocês está tendo a oportunidade de se aperfeiçoar para fazer melhor da próxima vez.

Então a execução da tarefa é mais importante que o próprio resultado? Significa que é melhor fazer de qualquer maneira a não fazer?

Não é isso. Artistas costumam dizer que todo o trabalho é apenas um ensaio para o próximo.
Mas em todos os trabalhos deve existir o comprometimento com a qualidade. Artistas – e eu uso a palavra artista para falar de todos os profissionais que precisam trabalhar com criatividade – estão sempre olhando em volta, andando para lá e para cá, tentando tirar ideias de qualquer lugar para tornar seu trabalho mais interessante, mais bonito, mais satisfatório. Quando eles param de fazer essa busca, eles ficam repetitivos e começam a minguar. Há duas palavras-chave para nortear os profissionais criativos: "aprender" e "adaptar-se". A busca pelo aperfeiçoamento deve ser constante, mas não se pode ter medo de arriscar ou mesmo de errar. Isso faz parte do processo. Até mesmo Steve Jobs, que é reverenciado como o empreendedor mais bem-sucedido dos últimos 20 anos, cometeu erros durante sua vida. No início dos anos 80, ele foi demitido da Apple por uma série de conflitos de ideias com outros executivos. Então, ele fundou a NeXT e errou lá. Aí, ele comprou a Pixar por um preço bastante baixo, e ajudou a fazer da Pixar o que ela é hoje. Os artistas e profissionais que nós amamos e admiramos são aqueles que se arriscam e também erram, às vezes.

Mas não é tão simples arriscar. Nem todos os chefes são tolerantes ao erro e nem todas as companhias incentivam os profissionais a fazerem as coisas de forma diferente. Errar pode custar caro às empresas. Como conciliar a necessidade de liberdade para criar e a responsabilidade com resultados financeiros?

Cometer erros não é bom. Mas os gestores, as pessoas mais experientes estão ali justamente porque deveriam ter a capacidade de ajudar os profissionais a fazer a coisa certa, sem precisar reprimir ideias. O bom chefe não deve dizer: “Você errou. Nunca mais tente fazer algo diferente.” O bom gestor, ao contrário, é aquele que consegue, a partir da falha de um funcionário, ajudá-lo a aprimorar as capacidades. Pisar na bola faz parte do processo criativo e isso não pode impedir alguém de tentar de novo.

O sr. já afirmou que a liberdade é fundamental para a criatividade. É possível ter boas ideias em ambientes autoritários?

A criatividade pode brotar de qualquer lugar. As pessoas são capazes de criar mesmo privadas de sua liberdade. Aleksandr Solzhenitsyn escreveu coisas extraordinárias a partir de sua passagem pela prisão (dissidente do regime soviético, o historiador Solzhenitsyn, Nobel de literatura, usou de sua trajetória nos gulags, a prisão de Stalin, para criar obras como Um Dia na Vida de Ivan Denisovich e Arquipélago Gulag). Mas uma coisa é a criatividade individual, outra é a cultura criativa. É difícil que exista cultura criativa em ambientes autoritários. Para que as atividades criativas possam aflorar e se sustentar é preciso que as pessoas tenham liberdade política e social e que exista um certo nível de riqueza no país. A economia criativa depende também que a sociedade, de maneira geral, esteja disposta a por a mão no bolso e pagar pelo trabalho de designers, de arquitetos e de artistas.

A economia criativa é associada a determinadas atividades. Mas o espaço para a criatividade nos negócios está restrito a essas áreas?

A dança, as artes plásticas, o design, a publicidade e toda a indústria de entretenimento no geral, incluindo cinema e literatura, são o que chamo de indústrias nomeadas. Aquelas nas quais é fácil enxergar a importância da criatividade. Mas o setor de tecnologia também tem um peso importante. De qualquer maneira, é importante colocar que a criatividade não está apenas nesses setores. É muito mais abrangente. É preciso considerar os princípios da economia criativa para mudar atitudes e o jeito de pensar. Os profissionais de diferentes perfis que mais tentarem desenvolver a habilidade de criar e também as empresas que melhor souberem lidar com esses profissionais serão também as mais promissoras no longo prazo.

Por que, afinal, a criatividade tornou-se tão relevante neste século?

A criatividade é chave da inovação. Ao aliar criatividade aos procesos produtivos, é possível desenvolver bens de maior relevência para as pessoas e com maior valor agregado.

Hoje, fala-se muito no iPod como resultado de uma atitude criativa e a Apple é muito bem-sucedida dentro desse coneito. Mas, lá atrás, muitas outras empresas já faziam uso da criativadade para ganhar importância e tornarem-se referência em sua área de atuação. Na verdade, toda a história da indústria de aparelhos eletrônicos está ligada à criatividade e ela foi fundamental para o crescimento das empresas japonesas durante os anos 70 a 90. Um exemplo disso foi o Walkman, que deu relevância não apenas a Sony mas a muitas empresas japonesas em sua época. Os consumidores mudam, a cada período querem coisas mais bonitas, com mais funcionalidade e não é possível fazer isso sem usar criatividade. As empresas de qualquer setor que não perceberem isso não terão como sobreviver.

Entrevista publicada pela Época Negócios

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