O que mais afeta a saúde dos executivos

Não há mais lugar para desculpas

Falta de tempo agora é inaceitável pelas empresas para justificar a vida sedentária, alimentação desbalanceada e deixar de seguir as recomendações médicas depois dos checkups. As empresas querem produtividade e custos menores com planos de saúde

Cuidar da saúde não pode mais ser algo condicionado apenas a exames, consultas e exercícios encaixados nas raríssimas sobras de tempo na agenda. Tem mais é que fazer parte da agenda. Caso contrário, vai complicar a carreira, e não só pelo efeito direto de doenças que virão, mais cedo ou mais tarde. Sinais de saúde ruim são vistos cada vez mais de forma enviesada pelas empresas. Significam produtividade menor e custos maiores, por vezes cobrados pelos planos de saúde ou seguradoras na renovação da apólice. Segundo o IBGE, desde o Plano Real, em julho de 1994, até o final de 2013, o custo dos planos de saúde subiu mais de 200 pontos acima da inflação. Placar: 558% a 345%. Isso na média geral. Planos de executivos costumam ter peso maior – são mais abrangentes e mais caros.

Se você é executivo e quiser ter uma vida boa e ao mesmo tempo ter sucesso profissional, trate de se cuidar. É preciso seguir as avaliações médicas, e isso o empregador vai lhe dizer, em algum momento. Veja o caso da mineira Algar Tech, que aplica um corte de 10% nos bônus para quem não cumpre metas individuais de melhoria da saúde. No primeiro ano, a maior parte dos executivos era sedentária e estava fora de forma. Dez anos depois, em 2013, 94% bateram as metas. “Vários dos nossos diretores, hoje, participam de corridas”, diz Maria Aparecida Garcia, diretora de talentos da empresa. Nas reuniões de trabalho, bolos de farinhas integrais, frutas e sucos são obrigatórios. Fora da ordem, só mesmo uma concessão especial à tradição mineira: o pão de queijo.

Há métodos e métricas para saber quem faz o quê. Na Telefônica Vivo, por exemplo, está em fase de implantação um sistema de acompanhamento da saúde. O primeiro passo será mapear o uso do plano. A partir daí, a AxisMed, empresa responsável pelo levantamento, definirá um plano de ação e incentivo a mudanças de hábito e cumprimento de recomendações médicas. No limite, diz Fábio Boihagian, diretor de AxisMed, são enviados profissionais de saúde até a casa do funcionário. “As pessoas possuem riscos diferentes”, afirma. “A mesma solução não funciona para todos.”

Quando o novo sistema começar a funcionar, a Telefônica Vivo vai poder acompanhar o comportamento dos gastos com saúde – uma redução é tida como certa. “Temos expectativa de retorno de 1,5 a 1,8 vez o investimento”, afirma Gustavo Quintão, gerente de promoção à saúde e segurança do trabalho da empresa. Não por menos, outras empresas estão no mesmo caminho – CSN, Santander, Siemens, Whirlpool e Votorantim, segundo Boihagian, estão entre os clientes da AxisMed.

As preocupações das empresas estão apoiadas em estatísticas. Pesquisas de instituições como o Hospital Albert Einstein e a operadora de saúde Omint apontam que, apesar de um desejo crescente de entrar na linha, o topo da pirâmide empresarial brasileira tem se alimentado mal e apresenta sinais de saúde que inspiram atenção. De acordo com números do Einstein, 60% dos submetidos a checkups no hospital não fazem atividades físicas e estão obesos; 50% apresentam altos índices de colesterol e triglicérides e 40% têm gordura no fígado. Sintomas de estresse foram encontrados em 15%. No estudo da Omint com executivos, 20,5% dos homens entre 40 e 60 anos e 48% dos homens acima de 60 anos apresentaram risco cardiovascular aumentado (RCA), o que significa que têm ao menos duas doenças crônicas importantes, como hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto. Para piorar, segundo a operadora de plano de saúde, tem crescido entre os avaliados o consumo de gorduras como manteiga e bacon.

Só o checkup, hoje oferecido por 85% das empresas aos seus executivos, segundo a consultoria Hay Group, não basta, se as recomendações depois dele não forem seguidas. Mudanças de hábito são essenciais para combater sedentarismo e sobrepeso, principais fatores de risco de doenças cardiovasculares, as que mais matam no Brasil, especialmente os homens. As mulheres cuidam-se mais, mas enfrentam outros problemas, como os desequilíbrios hormonais. Esses assuntos são tratados nas reportagens seguintes.

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